Resistência e transferência: técnicas de manipulação

A maneira mais simples de reduzir uma pessoa a uma coisa é abatê-la a tiros. Como tal método é repudiado, a psicologia mecanicista assassina os seres humanos que estuda, Mc Leod

PREÂMBULO: no mundo ocidental se trava uma verdadeira batalha pela conquista da nossa mente. Uma das armas mais letais e eficazes usadas nessa guerra é a arma da manipulação e do patrulhamento do pensamento imitando camaleão: a arma assume a cor que a vítima mais gosta. Quando a vítima está no território da ciência, o patrulhamento mental se mascara de teoria ou práxis científica, como no episódio das gêmeas transferência & resistência inconscientes. Mas a mesma dupla se dissimulava de teoria demogênica quando a vítima se encontrava no território da bruxaria. É preciso abrir os olhos e exercer contínua vigilância intelectual, para não gastarmos toda a nossa existência, tempo e talento reverenciando a psicocracia.[1]

INTRODUÇÃO: As teorias da transferência e da resistência inconscientes são ícones do PPP. Como é amplamente sabido, as teorias vinculadas ao paradigma do PPP, estudam recorrentemente o psiquismo típico de defuntos psicológicos, que seriam permanentes máquinas deterministas vítimas da sua maior riqueza, vítimas do próprio pensamento que, estrategicamente deveria ser inconsciente. Aliás, a dupla resistência e transferência só sobrevive dentro do modelo do inconsciente.  Essa dupla torna-se incompatível no modelo de sistema criador. Inconsciente está para determinismo fragmentário assim como criador está para intencional sistêmico. Perceba que estamos presenciando um choque civilizatório da revolução paradigmática noergológica.

 INCONSCIENTE, A MÁQUINA DO FRAGMENTARISMO DETERMINISTA: Assim é que na resistência e transferência a pessoa apresentaria pensamentos e comportamentos fabricados previamente, fabricados no passado e apenas exumados no aqui e agora, que serão a sempiterna repetição do sempre idêntico na abusiva arqueologia do presente. Essa fatalidade inconsciente estaria fora do alcance do sujeito e do comando do momento presente.

O agora seria uma ficção, uma eterna exumação, um recorrente xérox cujo original seria o axioma do fragmentarismo determinista, o qual sempre comandaria o momento atual lá de um passado engessado, que sobreviveu ao enterro organizado pela teoria da Relatividade. Isso é o protótipo do boneco determinista. É sempre com artifícios semelhantes; é sempre bebendo da sempiterna mesma fonte fragmentarista e determinista que o PPP seqüestra a intencionalidade do sujeito, na tentativa de reduzir as estratégias e táticas políticas intencionais típicas da polimorfa microfísica do poder interpessoal e presentes em qualquer relacionamento humano.

 McLeod também enxerga esse aniquilamento do sujeito promovido por teorias e práxis do PPP; também estranha a falta de insubordinação do cavernícola, tanto quanto nota  a ainda pequena insurreição do olimpiano, resumindo sua perplexidade na citação capitular.

 A POLÍCIA SECRETA DO PATRULHAMENTO DO PENSAMENTO: O artifício de patrulhamento do pensamento condensado nos semantemas TRANSFERÊNCIA & RESISTÊNCIA vem sendo utilizado como técnica de domínio e manipulação de pessoas desde o paradigma mágico, fortalecendo-se no paradigma religioso; ampliado pela escolástica; consagrado como a mais terrível e eficaz técnica de condenação da bruxaria; reabastecido pelos teóricos do inconsciente que floresceram nos séculos XVII e XIX e finalmente plagiado pela psicanálise. Em síntese, os ingredientes necessários para a criação e sustentabilidade das teorias gêmeas da transferência e resistência são: a) o seqüestro da consciente intencionalidade[2]; b) o cordão umbilical do axioma do fragmentarismo determinista inconsciente.

Deparamo-nos assim com uma situação delicada tanto para a sociedade quanto e sobretudo para qualquer profissional que se utilize de forma explícita ou implícita dessa dupla. E veja por que: O homem do século XX aprendeu com a História – mestra da vida – que as maiores brutalidades praticadas contra a dignidade humana, sempre usaram como escudo protetor a dupla transferência-resistência inconscientes

 BRUXARIA, O APOGEU DA RESISTÊNCIA E DA TRANSFERÊNCIA INCONSCIENTES: Todas as sessões de torturas da “sagrada (?) inquisição” baseavam-se na resistência tão bem descrita pelo também Doutor Henrich Kraemer: era sempre o incubo (inconsciente) que comandava a obstrução sistemática aos interrogatórios; era sempre a resistência provocada pelo incubo que capitaneava a negação confessionária. Era apenas e tão somente esse artifício capcioso – o artifício da resistência inconsciente – que autorizava aos profissionais da inquisição o uso de todos os tipos de tortura. A tortura destinava-se a vencer a resistência imposta pelo incubo à bruxa contra a vontade da dita cuja. A tortura quebraria a resistência e terminaria obtendo a confissão, isto é, uma declaração da bruxa dizendo exatamente que aquilo que o inquisidor achava que ela deveria ter pensando e estaria ocultando, era de fato verdade, tanto que ela mesma finalmente agora concordava e assinava seu termo de confissão de culpa de bruxaria..

 Afinal, a bruxaria era uma legislação tão justa: a acusação de bruxaria dava pena de morte. Mas a pena de morte do corpo só poderia ser posterior à pena de morte da imaginação. E a pena de morte da imaginação era obtida ou através de psicotestes projetivos[3] ou através da confissão de culpa. Nesse detalhe, o único diferencial entre a resistência bruxárica e a psicoterápica é a ausência da tortura física. Mas o ritual da suspeita em nada mudou, segundo o Psiquiatra Thomaz Szasz(…)a semelhança fundamental entre os psicodiagnósticos da bruxaria e os de hoje é que nos dois existe burla contra a vítima e mentira ao público(…).[4]

 A desumanização da vítima é a mesma. Ou como diziam os romanos: nomina mutantur, numina manent. É desse posto de observação que o THOMAZ SZASZ reafirma: Freud tenta legitimar suas metáforas ao supor que elas constituem parte da linguagem da ciência, quando na realidade isso não acontece: é a feitiçaria que se transformou em psicopatologia.

 TRANSFERÊNCIA TAMBÉM É UM CONCEITO MILENAR: O conceito de transferência nasceu da crença de que a doença era provocada por um invasor desconhecido (inconsciente, id, incubo) e indestrutível e a cura pela expulsão do invasor, sistema magnificamente muito bem encarnado na teoria psicanalítica, cujo objetivo é descobrir as pegadas deixadas pelo invasor, chegar até a sua toca, não para matá-lo mas simplesmente para transferi-lo para um desfecho negociado com o invasor. É injusto dizer que Freud não estudou História

Igualmente na teoria primitiva, toda a cura consistiria na mesma façanha de expulsar, de cuspir para fora (catarse), isto é, de TRANSFERIR o invasor para outra pessoa, para um objeto e especialmente para um animal. E ao contrário do que comumente pensamos, o psicanalista não é pioneiro nessa tarefa. O mais clássico catalisador de transferência ficou famoso como o símbolo da medicina: a serpente de Esculápio. E a transferência ficou tão famosa que muitas correntes psicoterápicas a adotaram por comodidade: afinal, no mercado persa de crendices que atulha o PPP, a transferência estava lá Prêt-à-porter e por uma verdadeira pechincha, já que os consumidores dessa antiga superstição ainda são abundantes.

Esse conceito de sujeito passivo que pode regurgitar resistência e arrotar transferência inconscientes não é nenhuma invenção do paradigma do passivismo psíquico, do PPP – o paradigma que ainda hoje comanda a Psicologia vigente. Nada disso: esse conceito é muito mais primitivo, é oriundo do paradigma mágico. O mito da transferência também foi reabastecido na bruxaria. Se você tiver curiosidade nesse tema, consulte 34 conceitos básicos da Bruxaria que foram plagiados pela psicanálise.[5] Você pode também fazer o contrário: vá direito ao Malleus Maleficarum, substitua incubo por ID e posessa por histérica e você verá o avant première da psicanálise escrita em 1486.

Lá também você conhecerá quão asquerosos são os relatos dos monges inquisidores tarados examinando apetitosas mulheres jovens inteiramente peladas, condição prévia para diminuir a resistência, mas que paradoxalmente aumentava a transferência. Esses relatos escabrosos dos homens inquisidores vestidos de monges dão conta de que, o enorme tesão sexual despertado por bruxas nuas – que já tinham fama de serem sexualmente insaciáveis transando com fogosos íncubos – as quais estariam transferindo para eles o tesão delas e com esse artifício da transferência esses bárbaros inquisidores ordenavam sessões de torturas nas bruxas, esperando com isso diminuir a transferência do tesão delas para os seus corpos pululando de testosterona.

 RESISTÊNCIA E TRANSFERÊNCIA INCONSCIENTES CONFLITAM COM DIREITOS HUMANOS: No século XX, a humanidade criou a DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS, estipulando já no seu artigo 1º que “todo homem é dotado de razão e consciência”, direito esse que é afrontado pela remanescência das figuras medievais da resistência e da transferência inconscientes.

 QUEM PAGA O PATO DA RESISTÊNCIA E DA TRANSFERÊNCIA É O CLIENTE, MAS ATÉ QUANDO? Mas não é só: artifícios conhecidos como transferência & resistência inconscientes são lesivos também ao código de defesa do consumidor, já que – à luz de qualquer olhar lúcido – são flagradas como artifício através do qual o profissional, numa estratégia semântica, consegue atribuir a culpa da sua incompetência ao cliente pagante.  Essa mordomia não é desfrutada hoje por nenhuma outra categoria profissional. Impressionante é como essa manobra continua utilizada apesar de já ter sido denunciada há quase meio século pelo psicólogo Emílio Myra Y Lopes: (…)goza os seus efeitos e desculpa-se impunemente pelos seus fracassos(…).[6]

Analisemos, agora, o segundo cordão umbilical que mantém ainda viva as gêmeas transferência & resistência: o axioma do fragmentarismo determinista, que a contemporânea visão sistêmica e holística aposentou em todos os ramos do conhecimento; que não é usada nem mais por encanadores ou pedreiros, mas estranhamente continua usada por profissionais que lidam com o Ser Humano.

 Lógico que o vetusto observador olimpiano do PPP é um fator facilitador da sobrevida dessa dupla. Esse observador olimpiano imagina gozar do privilégio da imunidade científica, em decorrência de cuja cegueira perceptiva o olimpiano sempre produz o que diz provar, como nos exemplos clássicos de Fernel e Freud.

 Fernel excita a mulher jovem com suas mãos másculas nas genitais desnudas de lindas mulheres jovens. Ele dizia que estava apenas fazendo um procedimento clínico: com neutralidade científica, estou constatando a subida desenfreada do útero por debaixo do umbigo. E apresentava como prova da sua tese exatamente os movimentos femininos típicos do tesão provocados pelas suas mãos nas genitais femininas.

 Freud repetiu a dose e a tese. Com Dora, por exemplo, depois de longa conversa erótica, falando de detalhes excitantes da conhecida triangulação amorosa de Dora. Na conversa usava palavras apropriadas para dar tesão. E ainda se orgulhava despudoradamente, dizendo que o nome do gato é gato, do pênis é pau, etc. Essa masturbação mental deixou Dora tarada. Quando a excitação de Dora quase atinge o orgasmo, o observador olimpiano Freud afirma: o beijo de Dora é a prova da transferência histérica, já que nem médico, nem paciente nada fizeram para o despertar erótico! Freud quer dizer que Dora não está beijando a ele e sim reproduzindo o beijo que ela não deu no seu pai, quando ela tinha dois anos (Freud não levava em conta o fato de que nesta idade o sistema glandular não suscita sexo). Ou seja, neste caso de transferência a mulher não pode sentir tesão, mas apenas reproduzir sintomas inconscientes para que o olimpiano possa emitir diagnósticos conscientes.

 Freud aprendeu com Charcot a levar a paciente ao estado quase de êxtase sexual. Foucault perspicazmente também percebeu que:

(…)a sexualidade é efetivamente excitada, suscitada, incitada, titilada de mil maneiras. Freud não precisou procurar outra coisa além do que vira em Charcot. A sexualidade estava sob seus olhos, presente, manifestada, organizada(…).[7]

FREUD, CHARCOT, FERNEL COMO ESPANTADORES DE ELEFANTE: Uma anedota ameniza a explicação de como o método pode contaminar os resultados, servindo para confirmar o bias, o referencial de preconceitos do próprio pesquisador. Na sala de espera situada no último andar de um edifício do centro da cidade, o sujeito estava lendo uma revista. Cada página lida era rasgada, enrolada e atirada janela abaixo. Uma moça na sala perguntou:

 — Por que você está fazendo isso?

E o sujeito:— Estou espantando os elefantes!

A moça: — Mas aqui não há elefantes.

Então o sujeito concluiu triunfante:— Lógico, o meu método nunca falha!

Freud, Charcot, Fernel e o Espantador de Elefantes cometem o mesmo tipo de erro. Como se imaginam imunes, não conseguiram enxergar que eles próprios provocavam a excitação na mulher antes para depois usar a excitação produzida por eles como prova da transferência histérica.

Qual é a solução para o impasse que acabamos de apresentar?

A solução é uma revolução de paradigma. Quem conhece Análise Paradigmática está careca de saber que quando o ciclo vital do paradigma atingiu a sua fase paralisante, nem mesmo descobertas científicas importantes conseguem produzir avanço naquela área. Porque tais descobertas são manipuladas e engolidas pelo olho do furacão com técnicas amplamente conhecidas como camaleão e tapetão, nomes auto-explicativos.

 NO INÍCIO ERA O PARADIGMA MÁGICO: Toda a ciência moderna teve seu início no paradigma mágico.Como tudo, nesse nosso universo conhecido – inclusive o sistema solar – paradigma também tem ciclo vital: nasce, cresce, assume a maturidade, declina, definha, paralisa e finalmente morre, facilitando a infância e juventude do paradigma emergente.

Pense na seguinte informação da Análise Paradigmática: A ciência contemporânea já abandonou o paradigma mágico, o paradigma religioso, o paradigma mecanicista e encontra-se hoje no mínimo no paradigma sistêmico. Mecanicismo como conjunto de axiomas paradigmáticos não é usado por nenhum outro ramo do conhecimento. A área PSI (psicologia, parapsicologia, psicanálise) é a última área usando como paradigma a sucata cultural mecanicista, paradigma com prazo de validade vencido.

Como as revoluções de paradigma são inevitáveis, mesmo para aqueles que as ignoram ou as confrontem, a solução mais inteligente nesse momento é dar o salto histórico para o paradigma emergente da Noergologia, o qual vem demonstrando ser não apenas exeqüível e viável, mas sobretudo exigível e inadiável.

 PARE DE OLHAR PRA TRÁS. OLHE PRA FRENTE, OLHE PRA NOERGOLOGIA: Aproveite a oportunidade dessa informação e venha jogar no time da Noergologia. Aqui, o axioma do observador deixa de ser olimpiano para tornar-se holocentrado. E para o observador holocentrado teorias como resistência e transferência inconscientes tornam-se rigorosamente incompatíveis. Essa incompatibilidade é dupla: de um lado o profissional noergologista é incapaz de criar uma dupla tão absurda como essa; e do outro lado, o sujeito cujo pensamento deixa de ser inconsciente fragmentário para tornar-se criador e intencional torna duplamente incompatíveis teorias arcaicas como a citada dupla.

O que a transferência chamava de reprodução ou fac-símile, para a noergologia é COMPORTAMENTO ORIGINAL CRIADO AGORA INTERATIVAMENTE. A água que está passando agora debaixo da ponte não é a mesma que passou ontem.  Para a noergologia, o ontem foi, o amanhã será, apenas vivo agora! O pequeno arquiteto do universo cria continuamente suas dimensões de realidade. Em Noergologia não há determinismo, nem energia invasora, portanto não existe transferência, nem resistência, muito menos inconsciente.

Até o físico já descobriu que altera o que observa. Só profissionais da PSI não acreditam nisso, preferindo crer que o Ser Humano é uma fatalista máquina desejante determinista inconsciente sempiternamente comandada por tração traseira, arrotando transferência e resistência inconscientemente.

 PARA REFLETIR:

Arthur Koestler: (…)a psicologia contemporânea  paga um preço elevado por concordar com a doutrina mecanicista, que representa a negação de cada ramo da psicologia aplicada(…).[8]

 Sartre: A imaginação não é simples ressurreição, é um estado presente, é criação, é intenção(…).[9]


[1] Psicocracia: domínio de pessoas através de técnicas que manipulam seu pensamento; [2] Usamos o termo “consciente” apenas para facilitar a comunicação. Em Noergologia o termo consciente é abolido por ser pleonasmo e o termo inconsciente é abolido por ser utopia.; [3]O incubo comandava o braço da bruxa de sorte que o desenho era feito contra a vontade da bruxa e com a vontade do incubo. Estão vendo como são modernos os testes projetivos?; [4] SZASZ, Thomaz, 1976. A fabricação da loucura, p. 63, RJ. Zahar; [5] BETTONI, Jacob, Revolução de Paradigma na Psicologia, Ed Alexandria, pg. 194; [6] MYRA Y LOPES, Emilio. 1964. Avaliação crítica das doutrinas psicanalíticas, p. 65, RJ. FGV; [7] FOUCAULT, Michel. 1979. Microfísica do poder, p. 266, RJ. Graal.; [8] KOESTLER, Arthur, 1972. As razões da coincidência, p. 70, RJ. Nova Fronteira; [9] SARTRE, Jean-Paul. 1972. A imaginação, p.p. 43 e seg. SP. Abril 

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