Na Faculdade mentiam que Freud descobriu o inconsciente

VACINE-SE CONTRA FRAUDES CIENTÍFICAS :  FREUD DESCOBRIU O INCONSCIENTE!

PROF JACOB BETTONI

Não devemos supor que esta visão inconsciente do psíquico seja uma  inovação devida à psicanálise. Theodor Lipps afirmou com a maior  clareza que o psíquico é em si mesmo inconscient, S. Freud, 1938

INTRODUÇÃO: Long, long time ago ter consciência era um direito político da aristocracia e ser inconsciente era um dever do povão. Se quiser saber mais leia na íntegra “ARQUEOLOGIA DO INCONSCIENTE” http://www.noergologia.com.br/consciencia.htm

Muitos séculos depois, essa temática foi retomada por vários autores, entre os quais: a) 1800: Platner; B) 1831-1846: Livros de Carl Gustav Carus: Inconsciente Absoluto e Relativo; C) 1869: Edouard Von Hartmann – Filosofia do Inconsciente; D) 1880: E. Colsenet “Estudos Sobre A Vida Subconsciente do Espírito”; E) Theodore Lipps Escreve Vários Livros Sobre O Inconsciente e Foi Neles Que Freud se Baseou: “1883 – Os Fatos da Vida da Alma”, “1898 – O Cômico e o Humor”; e) 1900 – FREUD divulga seu livro dos sonhos, baseado nas teorias vigentes sobre o inconsciente. O próprio Freud reconhece que: o ex não é uma inovação da psicanálise e pronuncia a afirmativa supracitada. De sorte que deve ficar muito claro para todos que essa fraude científica atribuindo a autoria do inconsciente a Freud é da responsabilidade das pessoas que hoje ficam divulgando essa grande mentira histórica. Vamos deixar Freud fora dessa responsabilidade. Está claro para todos que Freud nunca disse tal mentira! Pelo contrário, Freud desmentiu que difunde tais fraudes científicas.

Freud descobriu o inconsciente! Esta é uma das mentiras com que o press release psicanalítico nos engana. O pior é que ainda pagamos por isso; ou seja, gastamos dinheiro na compra de livros ou pagamos sofridamente os cursos que freqüentamos e os seminários de que participamos, cujas fontes nos transmitem falsificações históricas e culturais. Compramos informação verdadeira e recebemos produto falsificado.

Na realidade, como informa Fuller Torrey, Freud não teve opção. Ele não formou a teoria do inconsciente, foi formado por ela. Por volta de 1880, onze anos antes do artigo sobre cura hipnótica e vontade contrária (outro embrião do inconsciente), já circulavam sete livros na Europa sobre o inconsciente, cujo conceito impregnado de passivismo era largamente aceito.[1] Consta que a versão semântica “inconsciente” foi criada por Platner por volta de 1800.[2] Um século antes de Freud, Carl Gustav Carus já havia estabelecido: 1)     A diferença entre inconsciente absoluto e relativo; 2)     A influência permanente entre os dois; 3)     Que o conhecimento do consciente tem sua chave no inconsciente; 4)     Que o sonho consiste na irrupção do inconsciente.[3]

Edouard Von Hartmann publica em 1869 sua Filosofia do inconsciente, e nessa obra pretende fornecer uma síntese metafísico-científica definitiva do inconsciente de que falavam vários filósofos, [4] usando o método indutivo ascendente, começando pelos efeitos e caminhando junto eles através das causas, método que se replica e se aplica ainda hoje no objetivo prático da análise: fazer o sintoma imitar o cão e farejar o rastro energético para chegar à toca do tatu e desentocá-lo. Hartmann já ensinava com clareza que (…)o inconsciente é o princípio primeiro, a causa universal de onde deriva a totalidade do real(…).[5] Nessa obra já definiu os conceitos de: a)    Inconsciente orgânico gerando o psiquismo; b)    Instinto como atividade que visa a um objetivo, sem ter consciência disso; c)    Energia inconsciente com força capaz de comandar a vontade; d)    Inconsciente dominando todo o psiquismo.

No final do século XVIII, Grasset já havia estabelecido a diferença entre o psiquismo superior ou consciente e o inferior, poligonal e automático. Automático é na realidade um belíssimo termo, [6] porque muitas vezes usamos indevidamente o termo inconsciente, para designar um comportamento apenas automático. Pierre Janet retomaria esta noção no futuro.Em 1918 Schopenhauer, na obra O mundo como vontade e representação, redefine o termo vontade como sem consciência e dotada de uma fôrça irracional e ativa! Esta fôrça ativa é o senhor e o intelecto passivo é o escravo, o que faz com que o homem possa ignorar os verdadeiros motivos dos seus atos.[7]

O psicanalista ortodoxo Keneth Levin, estudou as concepções de Freud e suas relações com os conceitos predominantes na neurologia, na psiquiatria e na psicologia do século passado, afirma inclusive que:

Os modelos de Freud jamais poderiam lograr sua rápida ascensão ao lugar de extraordinária proeminência que ocupam na psiquiatria se já não houvesse um interesse generalizado pelas neuroses e um certo número de princípios básicos, como o conceito de ideação inconsciente e a noção de etiologias sexuais para as neuroses, não tivessem já surgido como temas populares na teorização neuropsiquiátrica.[8]

O herbartiano Robert Zimmermann foi professor de Freud.[9] O herbartianismo exercia influência similar à que hoje exerce a psicanálise: o herbartianismo era a psicologia dominante no mundo científico em que Freud viveu durante os anos formativos do seu desenvolvimento científico. A noção de que as idéias estão sendo constantemente inibidas ou reprimidas foi, de fato, preponderante no pensamento psicológico do último quartel do século XIX; mas embora o nome de Herbart fosse freqüentemente mencionado, houve também outras fontes extremamente importantes para a aceitação do mesmo conceito.[10]

Herbart já definia o conceito de economia energética que também a psicanálise copiaria: O estático, abaixo do qual se situam as idéias reprimidas com tanto êxito que não exercem influência alguma sobre o comportamento; e o dinâmico, abaixo do qual se encontram idéias vigorosas que são capazes de exercer alguma influência sobre o comportamento, embora estejam fora da consciência.

 

Tal qual na psicanálise, das vicissitudes destes conflitos surgiriam as doenças mentais.[11] Alexander e Selesnik não hesitam em Apontar a dívida, em grande parte não reconhecid, a de Freud para com Herbart, James, Carus, Von Hartmann, Driesch, Charcot, Bernheim, Forel, Dejerine e outros que o precederam, bem como sua intolerante exclusão do recinto privado da psicanálise de todos aqueles que punha seriamente em dúvida qualquer dogma.[12]

 

O conceito de inconsciente em que Freud se formou, portanto, já continha a irracionalidade, a corporeidade, a tenebrosidade, o lado escuro, o reprimido, a energética automática poligonal comandando o psiquismo, o conceito da força capaz de atingir alvos variados, em síntese, o axioma da energia invasora replicando o conceito do deslocamento e projeção e a falta de distinção entre vontade e imaginação.

 

Freud, como se vê, jamais poderia ter descoberto um conceito que era uma teoria dominante. O psiquismo já estava loteado e topografado. A energia invasora, criando o inconsciente, já era conhecida como sexual. O que Freud trouxe de realmente novo foram dois ingredientes: navegou a teoria do inconsciente para dentro da bruxaria, e nela fez um rebatismo semântico, substituindo o termo demônio por outro, por aquele criado por Groddeck: id.

Foi lá dentro da bruxaria que o id adquiriu as mesmas forças do diabo. Foi depois desse estágio que o id aprendeu com o capeta o que eradeslocamento, projeção e um eterno festim sexual. Além de todo o conhecimento histórico a respeito dessa excursão, é notável meditar que a bruxaria usava diagnósticos e terapias idênticas às da histeria.[13]

 

Freud compilou todos esses conceitos em voga, transformando-os num produto padronizado e aceito pelo mercado, como resultado da sua sábia formatação a respeito de tudo isso, id em alemãonuma franquia comercial. Tal mérito de marketing não se pode negar e muito menos transformar o autêntico elogio, numa sátira: conseguir cobrar taxa auricular merece o prêmio TOP de Marketing. Mas comércio não é ciência; a Coca-Cola é sucesso, nem por isso existe a cocanálise!

 

A propaganda de que Freud teria sido o imaculado descobridor do inconsciente é tática polimorfa de poder e nunca um dado histórico. Vejam: a circulação deste e de outros saberes falsos ou falsificados é comandada pelo poder ligado ao lucrativo saber. O poder vende o produto Freud como um gênio. Tudo o que o gênio diz é indiscutível. O raciocínio é escolástico: o id está certo porque Freud o descobriu: magister Freud dixit! Muitos escolásticos obrigam Freud a dizer o que ele nunca disse e nem jamais diria.

 

E agora que se sabe que o mestre falou baixinho, só para sua panela, que o complexo de Édipo, que o superego foi um grande engano? E que o sintoma tinha condições de promover, no deslocamento dotado de realidade psíquica, imediatamente e de graça, a descarga total da usina do inconsciente, promovendo o vazamento catexial e o esvaziamento lidinal, que são os autênticos criadores do sintoma, fazendo uma grande economia tanto no aparelho psíquico, quanto no bolso do dominado; [14] Freud ainda continua gênio infalível? Ou aqui ele errou, para que a repressão, a projeção, o superego e a astuta análise prossigam alimentando a indústria da fabricação da loucura, do inconsciente, da projeção e da análise?

 

Portanto, a encarniçada disputa pela autoria da descoberta do inconsciente, embora se trate apenas de aves de rapina disputando carniça, pois não é nenhuma glória defender uma calamidade cultural, deve deixar claro para todos nós a força da manipulação e da falsificação de informações, vitimando todos os desavisados.[15]

 

É oportuno lembrar que, depois de criado o marketing da fama de Freud como gênio (!), muitos escolásticos propagam a notícia de que Freud inventou o inconsciente, na tentativa vã de prolongar a vida desse agonizante conceito.

 

Reparem a esperteza: quando a única fama que Freud tinha era a de ser um pervertido sexual, sem nenhum peso científico, ele fazia questão absoluta de se respaldar nos conceitos dominantes de inconsciente, frisando que o conceito não era dele e sim dos outros, pondo vários pensadores como verdadeiros testas de ferro para receberem as pedras que se atoravam na psicanálise.[16]

 

Atualmente a situação se inverteu: Freud é quem tem fama de sábio e a teoria do inconsciente psicanalítico não passa, segundo o Nobel de medicina Sir Peter Medawar, de coletânea de atentados à inteligência[17] que, tendo esgotado o estoque de possibilidades científicas, foi internada na U.T.I. da escolástica, onde é (…)defendida como um dogma(…).[18] Agora é Freud quem serve de testa de ferro, doando sangue para o inconsciente. Eis a razão da propaganda falsa. Lembramos, porém, que o estoque de otários está chegando ao fim.

 

Para que não reste dúvida do que afirmamos, releia e reflita sobre o depoimento do próprio Freud na citação capitular. Paul Assoun conclui, no estudo que teceu sobre o inconsciente, que Freud encontrara em Lipps seus conceitos com uma concordância até mesmo nos detalhes. Tanto o conceito então vigente de inconsciente quanto a demonologia incorporada do Malleus reencarnaram o PPP. O inconsciente já era para Carus o lado tenebroso da alma e, para Hartmann um instinto de origem orgânica, visando a um objetivo.

 

Questionamos então neste estudo a criação do conceito do inconsciente: por que razão teriam as formas dogmáticas de tal criação sofrido, historicamente, tão profundas distorções? Por que, de forma tão acrítica, muitos de nós sistematicamente reproduzimos que Freud é seu criador? O que queremos é, antes de tudo, realizar um esforço intelectual no sentido de demonstrar, na própria história da evolução do conceito, quanto o próprio Freud foi vítima de uma forma passiva de conceber o psiquismo. Damos plena razão ao desabafo de Rudolph Allers:

É onde a psicanálise pecou contra a verdade que se encontra a sua fraqueza e o gérmen do seu fim. O erro não pode durar sempre, mas a verdade vive eternamente. Se não entendemos os fatos como eles foram e porque eles são como são, como saberemos como deverão ser?                                            


[1] TORREY, Dr. E. Fuller, 1976. A morte da psiquiatria, p. 21, RJ. Paz e Terra.[2] VERALDI, Gabriel et al. 1971. L’inconscient pour et contre, p. 25, Paris. CEPL.[3]FILOU, J. C, 1966. O inconsciente, p. 13-15, SP. Difusão Européia do Livro.[4] Freud também tentaria novamente esta façanha na sua Metapsicologia, em 1915.[5]ASSOUN, Paul Laurent, 1978. Freud, a filosofia e os filósofos, p. 216, RJ. Francisco Alves.[6] TALLAFERRO, A.1957. Curso basico de psicoanalisis, p. 36, Buenos Aires, Paidos.[7] Schopenhauer e demais teóricos do inconsciente contribuíram para fortalecer duas grandes confusões que se infiltraram na psicanálise: a) forte era a energia invasora que estava no comando e fraco era o psiquismo, que era comandado pela energia; b) falta de distinção entre vontade e imaginação.[8] LEVIN, Keneth, 1980. Freud, a primeira psicologia das neuroses, p. 20, RJ. Zahar.[9] LEVIN, Keneth, 1980. Freud, a primeira psicologia das neuroses, p. 106, RJ. Zahar.[10] LEVIN, Kenneth, 1980.Freud,: a primeira psicologia das neuroses, p. 106, RJ. Zahar.[11] LEVIN, Keneth, 1980. Freud, a primeira psicologia das neuroses, p. 105, RJ. Zahar.[12] ALEXANDER, G. Franz et SELESNICK, Sheldon, 1968. História da psiquiatria, p. 17, SP. Ibrasa.[13] RIBAS, João Carvalhal, 1964. As fronteiras da demonologia e da psiquiatria, p.p. 111 e 112, SP. Edigraf.[14] FREUD, Sigmund, 1915. Lo inconsciente, p. 2072.[15] Freud confidencia que jamais resolveu o mecanismo da continuidade da repressão. Ele explicava como a repressão começava, mas nunca conseguiu dizer como ela podia continuar, obedecendo as suas próprias leis da mobilidade, do deslocamento e da realidade psíquica.[16] ASSOUN, Paul Laurent, 1978. Freud, a filosofia e os filósofos, p. 193, RJ. Francisco Alves.[17] VERALDI, Gabriel, 1971. L’inconscient pour et contre, p. 170, Paris, CEPL.[18] VERALDI, Gabriel, 1971. L’inconscient pour et contre, p. 169, Paris, CEPL.

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