Mente Assassina – Reportagem Rede Globo


Reportagem do FANTÁSTICO de 04.12.2005 divulgou pesquisa realizada sobre a “mente assassina”, cujos dados estão em perfeita sintonia com a descrição noergológica do “comportamento violento”. Você pode acessar esta reportagem lendo a transcriação abaixo ou clicando diretamente no link da globo:  
Clique Aqui para Ver a Matéria CompletaEDIÇÃO DE 04.12.2005 * 04.12.2005

Investigação sobre a mente assassina

 O que passa pela cabeça de criminosos como Mark Chapmann, o homem que, há exatos 25 anos, chocou o mundo ao matar o ex-beatle John Lennon?

 Robert Fein é um psicólogo do Serviço Secreto americano. Brian Vossekuil é agente especial. Juntos, os dois percorreram presídios americanos com uma missão: descobrir o que se esconde por trás de atentados contra gente famosa. Interrogaram pessoalmente 20 homens e mulheres que executaram ou planejaram atentados.

Califórnia, junho de 968 – Por que Shiran Bishara Shiran atirou no senador Robert Kennedy?

Washington, março de 1981 – Por que John Hinckley Junior atirou no presidente Ronald Reagan?

Maryland, maio de 1972 – Por que Arthur Bremer atirou no governador George Wallace?

Nova York, dezembro de 1980 – Por que Mark David Chapman atirou no ex-beatle John Lennon?

O super-relatório preparado pelos dois desmente mitos.

A DECISÃO DE MATAR

“Uma de nossas mais importantes descobertas foi que os autores dos atentados, ao contrário do que se acredita, não agem por simples impulso. É tudo planejado. Isso quer dizer que nos dias, semanas e meses anteriores aos atentados, os gestos e atitudes dos autores podem indicar o que vai acontecer”, diz Brian Vossekuil.

O assassino de John Lennon é um caso típico: planejou cada passo. Nem os repórteres acreditaram quando o porta-voz do Hospital Roosevelt, em Nova York, deu a notícia. Um murmúrio de espanto percorreu a sala. A morte do ex-beatle pegou o mundo inteiro de surpresa. Só não foi

surpresa para um homem. Mark David Chapman planejou tudo sozinho. Diz que decidiu matar Lennon ao ver num livro fotos que mostravam a vida milionária que o ex-beatle levava. Para Chapman, fã incondicional de Lennon, aquilo era uma traição ao idealismo dos Beatles.

A CRENÇA

“Os autores dos ataques acham que, ao cometerem os atentados, estão resolvendo um problema – seja pessoal, seja nacional. Só depois é que descobrem que o atentado piorou tudo”, conclui Robert Fein. O problema de Chapman se chamava John Lennon. A decisão estava tomada:

Chapman comprou um revólver calibre 38, pegou um avião para Nova York e ficou de plantão na calçada do Edifício Dakota, o endereço do ex-beatle.  A espera durou horas. Quando Lennon apareceu, Chapman segurava o revólver com uma das mãos dentro do bolso do casaco. Mas não atirou: pediu um autógrafo. Uma foto registra o exato momento em que John Lennon assina um autógrafo para o fã que o mataria seis horas depois.

“Perguntei: ‘John, quer autografar este álbum?’ John foi muito cordial, chegou a me perguntar se eu queria mais alguma coisa”, lembrou Chapman, numa entrevista de 1993, concedida à TV americana.

Depois de conseguir o autógrafo, Chapmann poderia ter ido embora. Mas não foi. “Eu pedi a satã que me desse força para matar John Lennon”, continuou.

O psicólogo e o agente secreto desmentem outra crença comum.

A ORGANIZAÇÃO

“Doença mental não é causa. Só consegue cometer um atentado contra uma figura pública, especialmente as que vivem sob proteção, quem é organizado. Já os que sofrem problemas mentais agudos são, na maioria, desorganizados”, diz Robert Fein.

Chapman dava sinais de que era obcecado pelo ex-beatle. Quando pediu demissão do trabalho, no Havaí, assinou: “John Lennon”. Casou com uma descendente de japoneses mais velha do que ele – uma história de amor parecida com a de John Lennon e Yoko Ono.

O psicólogo que interrogou Chapman vai contra a corrente: discorda dos especialistas que dizem que o assassino de Lennon vivia um caso de confusão de identidade: Chapman pensava que ele próprio era John Lennon.  Assim, teria de eliminar o outro Lennon – que seria um impostor.

QUEM É QUEM

“A versão não é correta. Ao ser interrogado por nós, Chapman disse que pensou também em matar o governador do Havaí e Jaqueline Onassis. Se fosse verdade que Mark Chapman pensava que ele próprio é que era John Lennon, ele não imaginaria matar outras figuras públicas. Apenas se ocuparia de Lennon”, explica Robert Fein. Quando Lennon voltou para casa, no final da noite, lá estava o fã que lhe tinha pedido um autógrafo. “Atirei nas costas cinco vezes”, contou Chapmann.

EM BUSCA DA FAMA

“Ficou claro para nós que o fato de atrair a atenção, obter notoriedade e ficar famoso é muito importante para os autores dos atentados”, diz Robert Fein. “Eu achava que, ao matá-lo, iria conquistar a fama que ele tinha”, admitiu Chapmann.

Depois de atirar em Lennon, Chapman ficou imóvel: de pé, começou a reler o livro que trazia no bolso: “O apanhador no campo de centeio”, um relato sobre as desventuras de um adolescente revoltado.

A MENSAGEM

“Chapman nos disse que, ao cometer o atentado, acreditava que estava removendo um farsante, além de atrair a atenção para ‘O apanhador no campo de centeio’, livro que, para ele, trazia lições para a juventude –especialmente a americana”, esclarece Robert Fein. Mark David Chapman completou 50 anos em maio. Vai passar o resto da vida em uma prisão em Nova York. Recebe cartas anônimas com ameaças: se sair da prisão, será morto.

O REMORSO

“Enquanto falávamos com Mark Chapman, ele parecia sentir remorso”, conta o agente Brian Vossekuil. O homem que matou o Beatle terá todo o tempo para remoer o remorso e o arrependimento, como na entrevista para a TV americana – a única que gravou na prisão.

“Fiz uma coisa estúpida: tirei a vida de um gênio, um marido, um pai de uma criança de 5 anos. Não ouso pedir perdão, mas quero dizer que sinto muito. De verdade: eu sinto muito”, lamentou Chapman.

A DESCOBERTA

“A descoberta mais surpreendente é que os autores dos atentados se parecem com qualquer um de nós. Nenhum tem duas cabeças. Nenhum parece um monstro. A única maneira de prevenir é tentar descobrir os sinais prévios dos ataques”, diz Robert Fein.

Um ex-professor de Chapman disse: “Dos meus 400 alunos, Mark David Chapman era o que parecia menos capaz de fazer algo desse tipo”. Quando cruzou o caminho de Chapman, Lennon tinha acabado de lançar um disco depois de anos de reclusão. Em uma das músicas, ele sonhava em ver o filho crescer.

Mas o sonho de Lennon acabou dias depois: um fã obcecado estava esperando pelo ídolo – com um livro no bolso, um disco autografado e o dedo no gatilho, na calçada do Edifício Dakota – no final de uma  noite de segunda-feira em Nova York.

 

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